Um só Mediador entre Deus e os Homens

Tim Staples
Tradução: Marcelo Souza

Uma leitura superficial de I Timóteo 2: 5 parece eliminar a idéia de cristãos “mediando” graças uns para as outros: “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus,”. Os protestantes argumentarão: “Se Jesus é nosso único mediador, então Cristo sozinho medeia a graça. Ao dizer que qualquer outra pessoa pode, os católicos estão usurpando e, assim, negando o papel singular de Cristo como mediador. Isso é blasfêmia! ”

A RESPOSTA CATÓLICA:

Para a surpresa de muitos protestantes com os quais falei ao longo dos anos, a Igreja Católica realmente reconhece que Cristo é nosso único e absolutamente único mediador, que sozinho pode conciliar-nos com o Pai em sentido estrito. Em seu clássico, A Fé Guia Baseado no Catecismo da Igreja Católica, Pe. John Hardon explica:

… a Encarnação corresponde à mediação na ordem do ser, e a Redenção (remissão do pecado e conferência da graça) é a mediação moralmente.

Esse tipo de mediação é incomunicável. Ninguém, exceto o Salvador, reúne em Si a divindade, que exige reconciliação e a humanidade, que precisa ser reconciliada.

Os protestantes geralmente concordam conosco neste ponto. No entanto, o Pe. Hardon continua dizendo:

No entanto, mediadores menores e subordinados não estão excluídos. A questão é o propósito que eles servem e em que sentido medeiam. Eles podem ajudar a causa da mediação na única maneira que os seres humanos (ou criaturas) podem contribuir para a obra de salvação, ou seja, por sua resposta voluntária à graça; quer melhor dispondo a si mesmos ou outros para a graça divina, ou intercedendo com Deus para dar a Sua graça, ou cooperando livremente com graça quando ela é conferida.

Os “mediadores menores e subordinados” são onde começa o problema. Entretanto, o contexto de 1 Timóteo 2:5 demonstra a afirmação do Pe Hardon. Nos dois primeiros versos, São Paulo comanda “súplicas, orações, intercessões e serem feitas por todos os homens…” Intercessão é um sinônimo de mediação. Hebreus 7:24-25 refere-se a Jesus agindo como nosso único mediador à direita de Deus e se refere a Ele como intercessor:

Mas [Cristo]  porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo. Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.

Cristo é nosso único mediador / intercessor, no entanto, São Paulo ordena que todos os cristãos sejam intercessores / mediadores. Então note a primeira palavra no versículo cinco: “Porque existe um só Deus e um mediador…” E, no versículo sete, ele diz: “Por isso, fui nomeado pregador e apóstolo”. O que é um apóstolo se não um mediador? A própria definição de apóstolo, de acordo com o Léxico grego-inglês de Thayer do Novo Testamento, é “um delegado, mensageiro, um enviado com ordens”. Essa é uma parte essencial do que é um mediador. Em resumo, São Paulo diz que somos todos chamados a ser mediadores porque Cristo é o único mediador e por isso ele foi chamado a ser um mediador do amor e da graça de Deus para o mundo!

Isso é uma contradição? De modo nenhum! O fato de Jesus ser nosso único mediador não o impede de comunicar esse poder por meio de participação. A Bíblia também declara: “Mas você não deve ser chamado de rabino, porque você tem um professor, (Gr. – didaskolos) e vocês são todos irmãos”. Este texto não pode ser mais claro, contudo Tiago 3: 1 e Efésios 4: 11 nos diz que temos muitos professores (Gr. – didaskoloi) na Igreja. A chave é entender que os muitos professores e mediadores no corpo de Cristo não retiram de Cristo como único professor e mediador porque eles são, em certo sentido, Cristo nesta terra e servem para estabelecer seus cargos de professor e mediador nEle. Como membros do corpo de Cristo agraciado com uma tarefa específica por Cristo, eles podem dizer com São Paulo em Gálatas 2:20: “Não sou eu, mas Cristo que [ensina] em mim …”

E lembre-se, não estamos falando sobre a necessidade aqui. A Igreja não está reivindicando que Cristo não poderia fazer o trabalho, então ele precisava de ajuda. Claro que não! Ele poderia fazer tudo – e tudo sozinho – se ele quisesse. Ele poderia descer aqui agora e escrever esta publicação no blog muito mais eficaz do que eu jamais poderia. Mas Ele escolhe não fazer tudo sozinho, estritamente falando. Ele se deleita em usar seu corpo para comunicar sua vida e amor ao mundo.

O BELO CORPO

Talvez a imagem mais importante para o Povo de Deus na Escritura para entender o nosso tema, quer se trate da “mediação de toda graça” com referência à Mãe de Deus, ou a mediação das graças através das orações e sofrimentos de outros membros da Igreja, nos é dado em I Corintios 12, quando São Paulo descreve a Igreja como um corpo. CIC 753:

Na Sagrada Escritura, encontramos grande quantidade de imagens e figuras ligadas entre si, mediante as quais a Revelação fala do mistério inesgotável da Igreja. As imagens tomadas do Antigo Testamento constituem variantes duma ideia de fundo, que é a de «povo de Deus». No Novo Testamento, todas estas imagens encontram um novo centro, pelo facto de Cristo Se tomar a Cabeça deste povo que é, desde então, o seu Corpo. A volta deste centro, agrupam-se imagens «tiradas quer da vida pastoril ou agrícola, quer da construção ou também da família e matrimónio.

O Antigo Testamento tem belas imagens para o Povo de Deus. Eles são mostrados como a noiva de Deus (Jeremias 3: 1-14); Eles são filhos de um Deus revelado como seu “pai” (ver Mal. 1: 6), e mais. Mas com o advento de Cristo, essas analogias foram trazidas a um nível totalmente novo e impensável para a mentalidade do Antigo Testamento (ver CIC 239-240).

Deus foi revelado ser “como” um pai no Antigo Testamento. No Novo, Ele é revelado como Pai dentro das relações eternas da divindade. Através da nossa união mística com Cristo através do batismo, nos tornamos filhos e filhas de Deus, pelo qual podemos verdadeiramente chamar Deus “Abba” – pai (Gálatas 4: 4-7). Nós nos tornamos irmãos e irmãs de Cristo e verdadeiros filhos de Maria (Romanos 8: 14-17, João 19: 27-Rev. 12:17). O conceito de “noiva” atinge novas alturas quando falamos da Igreja como a “noiva” de Cristo (Efésios 5: 24-32). Mas, ainda mais radicalmente, “nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente membros uns dos outros” (Romanos 12: 5), pelo qual somos apanhados na própria vida interior de Deus como membros do corpo de Cristo pela graça (Efésios 2: 5-6), e em virtude desse fato fomos feitos “participantes da natureza divina” como diz II Pedro 1: 4.

É essa imagem do “Corpo de Cristo” que nos ajuda a entender como um membro do corpo pode auxiliar outro na comunicação da vida divina um para o outro sem diminuir o papel “da cabeça”. Por exemplo, se eu pegar uma caneta aqui na minha mesa, dirijamos “a cabeça”, ou “eu”, não teria nada a ver com isso? “Ah, não, sua mão fez isso, Tim, não você!”

Assim é com Cristo e seu Corpo. Ef. 1: 22-23 chega até dizer que a Igreja é: “A plenitude daquele que preenche tudo em todos”. Assim, a Igreja é Cristo neste mundo. Isso não retira de Cristo sua mediação única; Estabelece essa mediação única. Diferentes membros da Igreja medeiam várias graças de acordo com seus respectivos dons enquanto o corpo inteiro funciona para trazer Cristo para o mundo. Romanos 12: 4-6 diz:

Assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros e esses membros não exercem todos a mesma função, assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros. Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada.

E essa união radical com Cristo e com os outros membros do Corpo de Cristo não cessa na morte. Romanos 8: 35-38 diz-nos, entre outras coisas, “nem a morte nem a vida … podem nos separar do amor de Cristo”. Assim, aqueles vivos na Terra ainda podem se beneficiar de – eles ainda estão conectados aos – os outros membros do Corpo de Cristo no céu.

Cristo é nosso único e verdadeiro mediador? Absolutamente! E é esse mesmo Cristo que escolheu usar seu Corpo para mediar a graça de Deus para o mundo dentro e através dele.

Artigo original

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