Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis? O Tempo (Parte 1)

LeeStrobelNesta primeira postagem da série é reproduzido um trecho do livro “Em Defesa de Cristo” do jornalista e ex-ateu Lee Strobel. É um trecho que irá esclarecer a dúvida sobre a data em que os evangelhos foram escritos.

Lee era um ateu linha dura que ficou furioso quando sua esposa começou a frequentar o culto de uma igreja local. Ele chamou alguns amigos repórteres para irem a uma das reuniões e anotar tudo o que pastor falava. Seu objetivo era um só: Colocar suas habilidades investigativas de jornalista para desmascarar de vez o que ele achava que o cristianismo era: uma grande farsa.

Mal sabia ele que esta decisão seria o início de uma jornada sua de 2 anos onde ele realizou uma análise investigativa detalhada dos evangelhos. A jornada culminou no sentido contrário, com sua conversão a discípulo de Cristo devida à esmagadora quantidade de provas em favor da confiabilidade dos evangelhos.

CraigBlombergNeste trecho Lee entrevista o Dr Craig Blomberg. Antes vejamos uma breve biografia acadêmica do Dr Blomberg.

O Dr Craig  Blomberg  é  considerado  uma  das  autoridades  mais  importantes  do  país (EUA) nas  biografias  de  Jesus,  os  quatro  evangelhos. Doutorou-se  em Novo Testamento  pela  Aberdeeen  University,  Escócia, tornando-se  posteriormente  pesquisador  sênior  da  Tyndale  House,  na Universidade de Cambridge, Inglaterra, onde integrou um grupo de elite formado  por  estudiosos  internacionais  responsáveis  por  uma  série  de trabalhos  muito  elogiados  sobre  Jesus.  Há  12  anos  leciona  Novo Testamento no prestigioso seminário de Denver. Dentre  os  livros  que  escreveu,  podemos  citar  Jesus  and  the gospels: interpreting the parables [Jesus e os evangelhos: a interpretação das  parábolas];  How wide the divide? [Qual o tamanho da divisão?], além de comentários sobre o evangelho de Mateus e 1Coríntios. Participou também da edição do sexto volume de Gospel perspectives [Perspectivas  dos evangelhos],  que trata exaustivamente dos milagres de Jesus. E coautor  ainda  de  Introductíon  to  biblical  interpretation  [Introdução  à interpretação  bíblica].  Contribuiu  com  alguns  capítulos  sobre  a historicidade dos evangelhos para o livro Reasonable faith [Fé racional] e escreveu  o  elogiado  Jesus  under  fire  [Jesus  sob  cerco].  Blomberg  é membro da Sociedade para o Estudo do Novo Testamento, da Sociedade de Literatura Bíblica e do Instituto de Pesquisas Bíblicas.

Apresentado o Dr Blomberg vamos a pergunta: Podemos Confiar nos Evangelhos Bíblicos?

Confiram o trecho do livro.

Em Defesa de CristoEm Defesa de Cristo pag 30 – 35

Uma  coisa  é  dizer  que  os  evangelhos  procedem  direta  ou indiretamente  do  testemunho  ocular;  outra  coisa  é  afirmar  que  a informação neles contida ficou preservada de modo confiável até que fosse finalmente registrada por escrito anos mais tarde. Eu sabia que esse era um dos  principais  pontos em disputa,  por isso queria  desafiar  Blomberg,  o quanto antes, com essa questão.

Peguei novamente o livro de Karen Armstrong, A history of God, e lhe disse:

Ouça o que mais diz a autora:

Sabemos muito pouco sobre Jesus. O primeiro relato mais abrangente sobre sua vida aparece no evangelho segundo São Marcos, que só foi escrito por volta do ano 70,
cerca de 40 anos depois de sua morte.  Àquela altura,  os fatos  históricos  achavam-se misturados a elementos míticos que expressavam o significado que Jesus havia adquirido para seus seguidores. É esse significado, basicamente, que o evangelista nos apresenta, e não uma descrição direta e confiável. 8

Pus  de volta  o livro na valise  aberta,  virei-me para Blomberg e prossegui:

— Alguns  estudiosos  dizem  que  os  evangelhos  foram escritos muito depois dos acontecimentos por eles registrados. Com isso, as lendas que se desenvolveram durante esse período acabaram por contaminar sua redação, alçando Jesus de simples professor sábio ao mitológico Filho de Deus. O senhor acha razoável essa hipótese ou será que existem indícios suficientes de que a composição dos evangelhos é anterior a essa data, ou seja,  antes  que  a  lenda  pudesse  corromper  totalmente  o  que  ficou registrado?

Blomberg, de olhos semicerrados, disse em tom veemente:

— Temos  duas  questões  distintas  aqui,  e  é  importante  que  as conservemos assim. Estou certo que temos indícios suficientes para fixar a data da redação dos evangelhos em um período mais antigo. Mas, mesmo que não tivéssemos, o argumento de Armstrong seria falho do mesmo jeito.

— Por quê? — perguntei-lhe.

— As datas estabelecidas no meio acadêmico, mesmo nos círculos mais liberais, situam Marcos nos anos na década de 70, Mateus e Lucas na década de 80, e João na década de 90. Observe que essas datas ainda estão dentro  do  período  de  vida  de  várias  pessoas  que  foram  testemunhas oculares da vida de Jesus, inclusive daquelas que lhe foram hostis, e que por isso poderiam atuar como parâmetro de correção caso houvesse em circulação algum ensinamento falso sobre Jesus. Conseqüentemente, essas datas mais  recentes para os evangelhos não são assim tão recentes.  Na verdade,  é  possível  fazer  uma  comparação  muito  instrutiva.  As  duas biografias mais antigas de Alexandre, o Grande, foram escritas por Ariano e Plutarco depois de mais de 400 anos da morte de Alexandre, ocorrida em 323 a.C, e mesmo assim os historiadores as consideram muito confiáveis. É claro que surgiu um material lendário com o decorrer do tempo, mas isso só aconteceu nos séculos posteriores aos dois autores. Por outras palavras, nos  primeiros  500 anos, a história  de Alexandre ficou quase intacta.  O material  lendário começou a aparecer nos 500 anos seguintes.  Portanto, comparativamente, é insignificante saber se os evangelhos foram escritos 60  ou  30  anos  depois  da  morte  de  Jesus.  Na  verdade,  a  questão praticamente inexiste.

Entendi  o  que  Blomberg  queria  dizer.  Ao  mesmo  tempo,  tinha minhas  reservas.  Para  mim,  parecia  intuitivamente  óbvio  que,  quanto menor o lapso  de tempo entre  um acontecimento e o momento  de seu registro, tanto menor a possibilidade de esse registro ser corrompido por lendas ou lembranças incorretas.

— Vamos  admitir,  por  enquanto,  que  seja  isso  mesmo,  mas
voltemos  à  data  de  registro  dos  evangelhos  — eu  disse.  — O senhor
acredita que eles foram escritos possivelmente antes da data mencionada?

— Sim, antes — disse Blomberg. — Podemos confirmar isso pelo livro de Atos, escrito por Lucas. Atos termina, aparentemente, sem uma conclusão. Paulo é a personagem principal do livro, e se encontra preso em Roma.  É assim, abruptamente,  que o livro  acaba. O que acontece com Paulo? Atos não nos diz, provavelmente porque o livro foi escrito antes da morte dele.

Blomberg ia ficando cada vez mais empolgado.

— Isso significa que o livro de Atos não pode ser posterior a 62 d.C. Assim, podemos recuar a partir desse ponto. Uma vez que Atos é o segundo tomo de um volume duplo, sabemos que o primeiro tomo — o evangelho de Lucas — deve ter  sido escrito antes dessa data. E já que Lucas inclui parte do evangelho de Marcos, isto significa que Marcos é ainda mais antigo. Se trabalharmos com a margem aproximada de um ano para cada um, chegaremos à conclusão de que Marcos foi escrito por volta de 60 d.C, talvez até mesmo em fins da década de 50. Se Jesus foi morto em  30  ou  33  d.C,  temos  aí  um intervalo  de,  no  máximo,  30  anos aproximadamente.

Blomberg recostou-se novamente na poltrona com ar de triunfo.

— Em termos  de  história,  principalmente  se  compararmos  com Alexandre, o Grande, disse ele, é como se fosse uma notícia  de última hora!

Era mesmo muito impressionante o fato de que, do ponto de vista histórico, tinha pouquíssima relevância o intervalo entre os acontecimentos da vida de Jesus e a data em que os evangelhos foram escritos. Todavia, eu queria insistir no assunto. Meu objetivo era retroceder no tempo o máximo possível até chegar às primeiras informações sobre Jesus.

Voltando ao começo

Levantei-me e fui até a estante.

— Vejamos se é possível  recuar  mais  ainda no tempo — disse, virando-me  para  Blomberg.  — De  que  época  datam  os  primeiros testemunhos mais importantes sobre a expiação, a ressurreição e a relação única de Jesus Cristo com Deus?

— É bom lembrar que os livros do Novo Testamento não estão em ordem cronológica — disse Blomberg inicialmente. Os evangelhos foram escritos praticamente depois das cartas de Paulo, cujo ministério epistolar começou por volta do fim da década de 40. A maior parte de suas cartas mais importantes são da década de 50. Para saber qual a informação mais antiga, vamos às cartas de Paulo com a seguinte pergunta: “Existem sinais aqui  de  que fontes  mais  antigas  teriam sido  usadas  na  redação  dessas
cartas?”.

— E o que encontramos? — perguntei.

—  Descobrimos  que  Paulo  havia  abraçado  alguns  credos,  confissões de fé  ou hinos da igreja  cristã  mais  antiga. Esses elementos remontam ao alvorecer da igreja pouco depois da ressurreição. Os credos mais famosos são os de Filipenses 2.6-11, que fala de Jesus como tendo a mesma natureza de Deus, e Colossenses 1.15-20, onde Jesus é descrito como a “imagem do Deus invisível”, que criou todas as coisas e por  meio de quem todas as coisas foram reconciliadas com Deus, “estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz”. Essas passagens sem dúvida são importantes  porque  mostram o tipo de crença que tinham os primeiros cristãos em relação a Jesus. Todavia, talvez o credo mais importante no que se refere ao Jesus histórico seja o de 1Coríntios 15, onde Paulo usa uma linguagem técnica para indicar que estava transmitindo essa tradição oral de uma forma relativamente fixa.

Blomberg localizou a passagem na Bíblia e a leu para mim:

Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez,  a maioria  dos quais  ainda vive,  embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago e, então, a todos os apóstolos. 9

— Essa  é  a  questão  — disse  Blomberg.  — Se  a  crucificação ocorreu em 30 d.C, a conversão de Paulo se deu aproximadamente em 32. Ele foi então levado imediatamente para Damasco, onde se encontrou com um cristão  chamado  Ananias  e  alguns  outros  discípulos.  Seu  primeiro encontro com os apóstolos em Jerusalém teria ocorrido em 35 d.C. Em algum  momento  desse  período,  Paulo  recebeu  esse  credo,  que  fora
formulado pela igreja primitiva e era usado por ela. Temos aqui, portanto, os principais fatos sobre a morte de Jesus pelos nossos pecados, além de uma lista detalhada daqueles para quem ele apareceu ressuscitado — tudo isso  se  dá  no  intervalo  de  dois  a  cinco  anos  depois  dos  eventos propriamente ditos! Não se trata aí de mitologia elaborada cerca de 40 anos ou  mais  depois,  conforme  pretende  Armstrong.  Pode-se  perfeitamente argumentar  a  favor  da  crença  na  ressurreição,  muito  embora  não  haja nenhum registro  escrito,  que  ela  remonta  aos  dois  anos  posteriores  ao
evento. Isso é de suma importância — disse ele, levantando um pouco a voz para dar ênfase.

— Não estamos comparando  30  ou  60  anos  com os  500  anos normalmente aceitos para outros dados — estamos falando de dois anos!

Não havia como negar a importância dessa prova. Ela parecia, sem dúvida, invalidar a acusação de que a ressurreição — que para os cristãos era a maior prova da divindade de Jesus — fora meramente um conceito mitológico  formulado  ao  longo  do  tempo,  à  medida  que  as  lendas corrompiam os relatos das testemunhas oculares da vida de Cristo. Fiquei particularmente  impressionado:  como cético  que era,  a ressurreição era
uma das minhas principais objeções ao cristianismo.

Encostei-me na estante.  Tratáramos de vários  assuntos e,  depois daquela observação culminante de Blomberg, achei que era hora de fazer uma pausa.

Um pequeno recesso
Já era fim de tarde. Tínhamos conversado o tempo todo sem fazer nenhum intervalo. Todavia, não queria encerrar nossa conversa sem antes submeter  os  relatos  das  testemunhas  oculares  ao  mesmo tipo  de  teste utilizado por advogados ou jornalistas. Precisava saber se eles passariam no teste ou se, na melhor das hipóteses, se mostrariam duvidosos; ou, na pior das hipóteses, indignos de confiança.

Depois de preparado o terreno, convidei Blomberg a se levantar e a esticar  as  pernas  antes  de  nos  sentarmos  novamente  para  retomar  a  discussão.

Ponderações
Perguntas para reflexão ou estudo em grupo
1. Você  já  foi  influenciado  pelo  testemunho  ocular  de  alguém?  Que critérios você costuma utilizar para avaliar a veracidade e a precisão de uma história?  Pelos  seus  critérios,  que tipo de avaliação receberiam os evangelhos?
2.  Na  sua  opinião,  o  conteúdo  teológico  dos  evangelhos  afeta  a autenticidade de seu testemunho histórico? Sim ou não? Justifique. Você acha que a analogia que Blomberg faz com o Holocausto ajuda a refletir sobre essa questão?
3.  De que modo a explicação de Blomberg sobre  as informações mais antigas  que  se  tem  sobre  Jesus  influencia  sua  opinião  sobre  a confiabilidade dos evangelhos e por quê?

Próxima Parte: Parte 2 – A Preservação – Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis?

Outras fontes de consulta
Mais recursos sobre esse tema
BARNETT, Paul. Is the New Testament history? Ann Arbor,Vine, 1986.
______. Jesus and the logic of history. Grand Rapids, Eerdmans, 1997.
BLOMBERG, Craig. The historical reliability of the gospels. Downers Grove,
InterVarsity, 1987.
BRUCE,  E E  Merece confiança o Novo Testamento?  2.  ed.  Trad  Waldyr
Carvalho Luz. São Paulo, Vida Nova, 1990.
FRANCE, R. T. The evidence for Jesus. Downers Grove, InterVarsity, 1986.

Fontes citadas
8  ARMSTRONG, op. cit, p. 79.
9 1Coríntios 15.3-7

Em Defesa de Cristo
Livro
Documentário em Vídeo

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