Cartilha Lógica 5: Falácias Lógicas

Original: Apologetics 315 (Brian Auten)
Tradução: Mike Moore
Obs: Os links da postagem original não possuem tradução para o português, adicionamos então alguns outros ao fim da postagem.

Hoje veremos falácias lógicas. A falácia é simplesmente um erro de pensamento. Alguns erros são tão comuns que foram classificados e nomeados. Estes são os tipos de falácias que estamos a tratar aqui.

Há duas categorias principais de falácias: Formais e informais. Falácias formais tem a ver com a estrutura lógica de um argumento. Se a estrutura lógica está incorreta, então o argumento cometeu uma falácia. Falácias informais têm a ver com erros de pensamento que acontecem além da estrutura de um argumento. Estas podem incluir coisas como apelo a emoções, ataques de caráter pessoal e linguagem ambígua.

Quando se trata de lógica informal, a tendência para o iniciante é a gravitar imediatamente para as falácias. Benefício imediato pode ser adquirido pelo entendimento de onde o pensamento pode ter dado errado. No entanto, o estudante de lógica é encorajado a tomar cuidado para não rotular todas aparentes falácias que eles podem encontrar. Isto é, não só descortês, em muitos casos, como também não é muito produtivo. Reconhecer falácias é apenas o primeiro passo. Mas trazer o pensamento apropriado e a clareza em  um problema pode ser o desafio real. Cada caso tem seus próprios elementos particulares, então mais informações são sempre úteis para determinar os pontos fortes e fracos dos argumentos.

Idealmente, quando uma falácia é reconhecida ela pode ser corrigida sem uma espécie de atitude “de peguei”. O princípio de caridade e de uma maneira graciosa são essenciais na busca de entendimento comum, em vez de simplesmente tornar-se um apontador-de-falácias.

Porque as falácias cobrem uma gama tão ampla, elas estão além do alcance de uma postagem. Além disso, muitos excelentes recursos podem ser encontrados na web para estudar as falácias. Embora muitos bons recursos são encontrados impressos, bons recursos de áudio são poucos. É por isso que nós fornecemos aqui uma adaptação em  podcast de áudio (inglês) do Guia de Stephen para falácias lógicas (inglês), um dos sites mais conhecidos sobre falácia na web. Permissão foi concedida pelo lógico Stephen Downes. A finalidade do podcast é apresentar e resumir as falácias e fornecem exemplos e soluções para os erros.

Você pode encontrar o podcast de Falácias Lógicas da Apologetics 315 no iTunes aqui . Ou utilize o feed RSS encontrado aqui. O podcast A Falacias Lógicas 2 ª Edição pode ser encontrado aqui .

O Guia de Stephen para Falácias Lógicas é encontrado aqui , com um bom site -espelho com conteúdo adicional acrescentado pelo filósofo cristão J.P. Moreland na Cartilha Ilógica aqui .

O Projeto Nizkor de 42 Falácias está aqui .

Áudio de Lógica e Falácias por Michael Ramsden pode ser encontrado aqui .

Livros úteis:
Nonsense (Bobagem) por Robert Gula
Lógica Informal por Douglas Walton

Adições do Blog A Razão da Esperança:
Categoria: Falácias Lógicas (Wikipedia)
Falácia (Wikipedia)
Dialética erística (Como vencer um debate sem precisar ter razão – em 38 estratagemas)

Aproveite.
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Cartilha Lógica 4: Um Olhar Sobre a Língua

Original: Apologetics 315 (Brian Auten)
Tradução: Mike Moore

No estudo da lógica, a linguagem desempenha um papel fundamental. Clareza na linguagem é essencial, a fim de comunicar o significado preciso. O objetivo quando se olha para a linguagem é determinar a intenção da comunicação. Determinar a intenção ou o objetivo de sua comunicação e compreender a intenção da pessoa com a qual você está se comunicando é o primeiro passo crucial na obtenção de clareza.Linguagem, de acordo com Copi, pode servir três funções. A primeira função é a de transmitir informações. A segunda função é expressar emoções ou sentimentos. A terceira função é de provocar ou impedir uma ação. 1 Toda a comunicação vai se enquadrar nessas categorias. O orador está informando, expressando, ou dirigindo?Exatamente o que você está tentando comunicar? Escolha palavras e linguagem que sejam tão precisas e exatas quanto possível para transmitir esse significado. “Se o nosso objetivo é transmitir informações, e se quisermos evitar ser mal interpretado, devemos usar a língua com o menor impacto emotivo possível.” 2

Definição de palavras é a próxima parte crítica da comunicação clara. A comunicação muitas vezes fica confusa, porque as palavras e os significados são simplesmente obscuras, vagas, ambíguas, ou de outra forma confusas. Em resposta, um certo número de definições podem ser usados para trazer mais clareza de significado.

Em primeiro lugar, as definições lexicais são usadas ​​para definir palavras que já são  geralmente conhecidas. Isso elimina a ambigüidade na comunicação pela simples citação da definição comum de uma palavra em uso. Segundo, definições estipulativas age para atribuir um significado especial para termos recentemente introduzidos no diálogo. Mais uma vez, este tipo de definição elimina a ambigüidade. Ela simplesmente atribui (estipula) uma definição para um termo novo que está sendo usado. Um terceiro método de clarificação de linguagem é a definição precisa, o que reduz a imprecisão, trazendo um significado mais específico para um termo. Este tipo de definição aumenta a precisão e exatidão.

Outros tipos de definições podem ser apresentadas, mas para os nossos propósitos será suficiente simplesmente apontar que a definição dos termos é de extrema importância quando se pretende comunicar de forma clara e pensar logicamente. Quando a linguagem é clara e os termos são claramente compreendidos, então, os argumentos podem ser avaliados.

Esclarecer através de perguntas é outra parte crucial de uma boa comunicação. Em um diálogo, é comum que as palavras e frases usadas ​​podem ser compreendidas de  um certo número de maneiras diferentes. Se alguém diz que algo foi “interessante”, o significado aqui poderia ser difícil de discernir. É insuficiente para acrescentar descrição. Será que a pessoa quer dizer que não gostou? Ela quer dizer que foi atraída? Esta palavra é vaga.

Quando palavras vagas são usados, questão de esclarecimento: “O que você quer dizer?” “O ​​que você quer dizer com isso?” E “Você poderia explicar?” Adicionam mais profundidade e detalhes à comunicação.
Quando alguém usa palavras que podem ser tomadas de diferentes maneiras, suas palavras são ambíguas. Se alguém descreve um concerto como “ruim”, eles querem dizer “legal” ou “não é bom?” É claro que, na comunicação verbal pessoal o significado normalmente pode ser facilmente percebido a partir do contexto, tom e linguagem corporal do comunicador. No entanto, na comunicação escrita, tais indicadores estão ausentes. Estamos dependentes só do contexto para discernir o significado. É por isso que a clareza é essencial.

Outra variante do uso ambíguo de palavras é o equívoco. Isso acontece quando o comunicador usa uma palavra particular X com o significado Y, mas depois usa X com significado Z. Por exemplo, pode-se usar o termo evolução no sentido de “mudança ao longo do tempo”, mas, mais tarde, no discurso o significado mudou com “moléculas ao homem.” Quando alguém faz a pergunta, “você acredita na evolução?” é importante eliminar a ambigüidade e definir o uso da palavra na conversa, a fim de evitar equívocos e confusão.

Anfíbólo acontece quando uma frase é dita (ou escrita) de maneira ambígua. Por exemplo, a frase: “O Oráculo de Delos disse a Croseus que se ele continuasse a guerra destruiria um reino poderoso.” 3 é um anfíbolo por causa da ambigüidade na construção gramatical. O comunicador claro evita ambigüidade.

A regra de ouro como um ouvinte é fazer perguntas de esclarecimento sempre que você não tiver certeza do significado, se a comunicação não é clara, e quando você precisar de mais informações. Se você é o comunicador, procure o máximo de clareza possível, de modo que o seu significado de sua mensagem seja compreendida. Comunicação clara é essencial para a compreensão exata.

Aqui estão alguns recursos para você se aprofundar:

Recursos de áudio:
– Critical Thinking curso de áudio

Livros úteis:
– Asking the Right Questions por Browne & Keeley
– Informal Logic por Douglas Walton

Sites da Web sobre este tema:
Critical Thinking Web
– O pensamento crítico na wikipedia
Critical Thinking on the Web

Na próxima postagem veremos Falácias Lógicas.

1 Geisler and Brooks, pp. 72-73.
2 Ibid., p. 96.
3 Robert J. Gula, Nonsense: A Handbook of Logical Fallacies (Mount Jackson, VA: Axios Press, 2002), p. 91.

Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis? As Traduções – Parte 3

Nesta terceira e última parte da nossa série abordaremos a questão das traduções bíblicas. Uma dúvida ou objeção muito comum é sobre a confiabilidade das traduções. Numa outra postagem desta série já vimos que as traduções de qualidade são feitas diretamente das línguas originais: o hebraico, o aramaico e o grego.

Porém muitas dúvidas podem persistir. Essas línguas são muito diferentes do português, os textos foram escritos entre dois mil a três mil e quinhentos anos atrás e para uma cultura muito diferente da nossa. Afinal podemos ou não confiar nas traduções?

Neste vídeo a seguir o Dr Augustus Nicodemus explica como são feitas as traduções. Ele é formado em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte, de Recife, mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul), doutor em Interpretação Bíblica pelo Seminário Teológico de Westminster (EUA), com estudos no Seminário Reformado de Kampen (Holanda). Foi professor e diretor do Seminário Presbiteriano do Norte (1985-1991), professor de exegese do Seminário José Manuel da Conceição (JMC) em São Paulo, professor de Novo Testamento do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (1995-2001), pastor da Primeira Igreja Presbiteriana do Recife (1989-1991) e pastor da Igreja Evangélica Suíça de São Paulo (1995-2001). Atualmente é pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, em São Paulo, SP.

Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis? A Preservação – Parte 2

Em Defesa de CristoDando seguimento a nossa série de 3 postagens sobre o confiabilidade dos evangelhos Bíblicos iremos abordar agora a questão da preservação. Não basta saber que eles foram escritos em prazo de tempo pequeno em termos históricos. Precisamos também nos perguntar: O material original foi preservado ao longo dos séculos ou  sofreu alguma alteração substancial proposital ou acidental?

Novamente nos valemos do excelente trabalho de jornalismo investigativo realizado pelo ex ateu Lee Strobel, que trabalhou para o Chicago Tribune.

Lee entrevista agora o Dr Bruce M. Metzger. Mas primeiro uma breve biografia do Dr Metzger.

bruce-metzgerNo total, Metzger escreveu  ou  editou  50  livros,  dentre  eles  The  New  Testament:  its background,  growth,  and  content  [O  Novo  Testamento:  seu  cenário, desenvolvimento e conteúdo]; The text of the New Testament [O texto do Novo Testamento]; The canon of the New Testament [O cânon do Novo Testamento];  Manuscripts  of  the  GreekBible  [Manuscritos  da  Bíblia grega];  Textual  commentary on the Greek New Testament  [Comentário textual  sobre o Novo Testamento grego];  Introduction to the apocrypha [Introdução aos apócrifos]  e The Oxford companion to the Bible [O guia bíblico  Oxford].  Muitos  desses  livros  foram traduzidos  para  o  alemão, chinês, japonês, coreano, malaio e outras línguas. Ele é também co-editor da  The new Oxford annotated Bible with the apocrypha [A nova Bíblia Oxford anotada com os apócrifos] e editor geral de mais de 25 volumes da série New Testament tools and studies [O Novo Testamento: ferramentas e estudos].

Metzger é mestre pelo Seminário e pela Universidade de Princeton, onde fez também seu doutorado. É doutor honorário por cinco faculdades e universidades,  dentre  elas  a  St.  Andrews  University,  da  Escócia,  a Universidade de Munster,  na Alemanha, e a Potchefstroom, da África do Sul.

Em 1969,  foi  professor  na  Tyndale  House,  em Cambridge,  Inglaterra. Também lecionou em Clare Hall, Universidade de Cambridge, em 1974, e no Wolfson College, em Oxford, em 1979. Atualmente é professor emérito do Seminário Teológico de Princeton, depois de uma carreira de 46 anos ensinando o Novo Testamento.

Metzger  é  presidente  do  Comitê  responsável  pela  New revised standard version [Nova versão-padrão revisada] da Bíblia, colaborador da Academia Britânica e membro do Kuratorium do Instituto Vetus Latina, do mosteiro  de  Beuron,  na  Alemanha.  Foi  presidente  da  Sociedade  de Literatura  Bíblica,  da  Sociedade  Internacional  para  Estudos  do  Novo Testamento e da Sociedade Patrística Norte-Americana.

Se olharmos as notas de rodapé de qualquer livro de prestígio sobre o Novo Testamento, é bem provável que encontremos o nome de Metzger inúmeras vezes. Seus livros são leitura obrigatória nas universidades e nos seminários do mundo todo. Ele é altamente respeitado por estudiosos de confissões teológicas bem amplas e diversas.

Feita a apresentação vamos ver a resposta do Dr Metzger a pergunta: Como podemos ter certeza de que as biografias de Jesus chegaram até nós bem preservadas?

Cópias de cópias de cópias
— Para ser sincero com o senhor — eu disse a Metzger —, quando soube  que  não  havia  nenhum exemplar  original  do  Novo Testamento, fiquei muito cético. Se tudo que temos são cópias de cópias, pensei, como ter  certeza  de  que  o  Novo Testamento  que  temos  hoje  é,  no  mínimo, semelhante aos escritos originais? Como o senhor responderia a isso?

— Não é só a Bíblia que está nessa situação, outros documentos antigos  que  chegaram até  nós  também  estão  — replicou  ele.  — A vantagem do Novo Testamento,  principalmente  quando comparado com outros escritos antigos, é que muitas cópias sobreviveram.

— Qual a importância disso? — perguntei.

— Bem, quanto maior o número de cópias em harmonia umas com as outras, sobretudo se provêm de áreas geográficas diferentes, tanto maior a possibilidade de confrontá-las, o que nos permite visualizar como seriam os documentos originais. A única forma possível de harmonizá-los seria pela  ascendência  de  todos  eles  à  mesma  árvore  genealógica  que representaria a descendência dos manuscritos.

— Muito bem — eu disse —, compreendi por que é importante que existam várias  cópias.  Mas e quanto à  idade dos documentos?  Não há dúvida de que isso também é importante, não é verdade?

— Exatamente  — respondeu  Metzger  —, mas  esse  elemento  é outro dado que favorece o Novo Testamento. Temos cópias que datam de algumas gerações posteriores ao escrito  dos originais, ao passo que, no caso de outros textos antigos, talvez cinco, oito ou dez séculos tenham se passado entre o original e as cópias mais antigas que sobreviveram. Além dos  manuscritos  gregos, temos também a tradução dos  evangelhos para outras línguas numa época relativamente antiga: para o latim, o siríaco e o copta. Além disso, temos o que podemos chamar de traduções secundárias feitas  pouco depois, como a armênia e a gótica.  Há várias outras além dessas: a georgiana, a etíope e uma grande variedade.

— De que forma isso nos ajuda?

—Mesmo que não tivéssemos nenhum manuscrito grego hoje, se juntássemos as informações fornecidas por essas traduções que remontam a um período muito antigo, seria possível reproduzir o conteúdo do Novo Testamento.  Além disso, mesmo que perdêssemos todos os manuscritos gregos  e  as  traduções  mais  antigas,  ainda  seria  possível  reproduzir  o conteúdo do Novo Testamento com base na multiplicidade de citações e comentários, sermões, cartas etc. dos antigos pais da igreja.

Embora  fosse  impressionante,  era  difícil  julgar  tal  prova isoladamente.  Eu  precisava  de  algum contexto  para  avaliar  melhor  a singularidade do Novo Testamento. De que maneira,  eu me perguntava, podemos compará-lo a outras obras bem conhecidas da Antigüidade?

Uma montanha de manuscritos
— Quando  o  senhor  fala  da  multiplicidade  de  manuscritos  — prossegui  —,  de  que  modo  isso  contrasta  com outros  livros  antigos normalmente reputados pelos eruditos por confiáveis? Por exemplo, faleme de escritos de autores da época de Jesus.

Metzger  consultou  algumas  anotações  à  mão  que  tinha  trazido, prevendo minha pergunta.

— Veja  o caso de Tácito,  o historiador romano que escreveu os Anais  por volta de 116 d.C. — começou. — Seus primeiros seis  livros existem hoje em apenas um manuscrito, copiado mais ou menos em 850 d.C. Os livros 11 a 16 estão em outro manuscrito do século xi. Os livros 7 a 10 estão perdidos. Portanto, há um intervalo muito longo entre o tempo em que  Tácito  colheu  suas  informações  e  as  escreveu  e  as  únicas  cópias
existentes.  Com relação  a  Josefo,  historiador  do  século  I,  temos  nove manuscritos gregos de sua obra Guerra dos judeus, todos eles cópias feitas  nos  séculos X a XII.  Existe uma tradução latina do século IV e textos russos dos séculos XI ou XII.

Eram números impressionantes,  sem dúvida.  Existe  apenas  uma seqüência  muito  tênue  de  manuscritos  ligando  essas  obras  antigas  ao mundo moderno.

— Só para comparar — perguntei —, quantos manuscritos do Novo Testamento grego existem ainda hoje?

Metzger arregalou os olhos.

— Há  mais  de  5  mil  catalogados  — disse  ele  entusiasmado, erguendo a voz em uma oitava.

Isso equivalia a uma montanha de manuscritos, se comparado com os formigueiros de Tácito e Josefo!

— Isso  é  incomum no  mundo  antigo?  Qual  seria  o  segundo colocado? — perguntei.

—  O  volume  de  material  do  Novo  Testamento  é  quase constrangedor em relação a outras obras da Antigüidade — disse ele. — O que mais se aproxima é a Ilíada de Homero, que era a bíblia dos antigos gregos.  Há menos  de 650 manuscritos  hoje  em dia.  Alguns  são  muito fragmentários. Eles chegaram a nós a partir dos séculos 11 e m d.C. Se levarmos em conta que Homero redigiu seu épico em aproximadamente
800 a.C, veremos que o intervalo é bastante longo.

“Bastante longo” era eufemismo; estávamos falando em mil anos! De fato,  não  havia  comparação:  a  existência  de  manuscritos  do  Novo Testamento constituía uma prova surpreendente quando justaposta a outros escritos respeitados da Antigüidade — obras que os estudiosos modernos não relutam de forma alguma em considerar autênticas.

Minha  curiosidade  em  relação  aos  manuscritos  do  Novo Testamento fora despertada. Pedi a Metzger que me descrevesse alguns deles.

— Os mais antigos são fragmentos de papiros, que era um tipo de material para escrita feito da planta do papiro que crescia às margens do delta  do  Nilo,  no  Egito  — disse  Metzger.  — Existem atualmente  99 fragmentos  de papiros com uma ou mais  passagens ou livros  do Novo Testamento.  Os mais  importantes já  descobertos são os papiros Chester Beatty, achados por volta de 1930. Destes, o número 1 apresenta partes dos quatro evangelhos e do livro de Atos, datando do século III d.C. O papiro número 2 contém grandes porções de oito cartas de Paulo além de trechos de  Hebreus,  e  a  data  gira  em torno  de  200  d.C.  O papiro  número  3 compreende uma seção enorme do livro de Apocalipse, com data do século III  d.C.  Um outro  grupo  de  manuscritos  de  papiros  importantes  foi comprado por um bibliófilo suíço, Martin Bodmer. O mais antigo deles, de aproximadamente 200 d.C, contém cerca de dois terços do evangelho de João. Um outro papiro, com partes dos evangelhos de Lucas e João, é do século III d.C.

A essa altura, o intervalo entre a escrita das biografias de Jesus e os manuscritos mais antigos revelava-se extremamente pequeno. Mas qual é o manuscrito  mais  antigo?  Será  que  é  possível  chegar  aos  manuscritos originais, que os especialistas chamam de “autógrafos”?

O refugo que mudou a história
— De todo o Novo Testamento — eu disse —, qual é a parte mais antiga que temos hoje?

Metzger não precisou refletir para responder.

— Um fragmento do evangelho de João com parte do capítulo 18. Tem cinco versículos, três de um lado, dois de outro e mede cerca de 6,5 por nove centímetros — disse Metzger.

— Como foi descoberto?

— Foi  comprado  no  Egito  em 1920,  mas  passou  despercebido durante anos em meio a outros fragmentos de papiros semelhantes. Em 1934, porém, C. H. Roberts, do Saint Johris College, de Oxford, trabalhava na classificação de papiros na Biblioteca John Rylands, em Manchester, na Inglaterra, quando percebeu imediatamente que havia deparado com um papiro em que se achava preservado um trecho do evangelho de João. Peloestilo da escrita, ele foi capaz de datá-lo.

— E a que conclusão ele chegou? — perguntei. — É muito antigo?

— Ele concluiu que o manuscrito era de cerca de 100 a 150 d.C. Muitos outros paleógrafos famosos, como sir Frederic Kenyon, sir Harold Bell,  Adolf  Deissmann,  W.  H.  P.  Hatch,  Ulrich  Wilcken  e  outros, concordam com sua  avaliação.  Deissmann estava  convencido  de que o manuscrito remontava pelo menos ao reinado do imperador Adriano, nos anos 117 a 138 d.C, ou até mesmo ao do imperador Trajano, entre os anos
98 e 117 d.C.

Era uma descoberta formidável, porque os teólogos alemães céticos do século passado haviam postulado enfaticamente que o quarto evangelho não fora redigido pelo menos até o ano 160 — numa época já bem distante dos  eventos  do tempo de  Jesus  para  que  pudesse  ter  alguma  utilidade  histórica. Com isso, influenciaram gerações de estudiosos, que zombavam da confiabilidade desse evangelho.

— Isso sem dúvida põe fim à essa teoria — comentei.

— Realmente  — disse  Metzger.  — Temos  aqui  um fragmento muito antigo do evangelho de João proveniente de uma comunidade das margens do rio Nilo, no Egito, muito distante de Éfeso, na Ásia Menor, onde o evangelho provavelmente foi escrito.
Essa  descoberta  fez  com  que  as  pontos  de  vista  populares  da história  fossem revistos,  colocando  o  evangelho  de  João  muito  mais próximo dos dias  em que Jesus  caminhou pela terra.  Tomei  nota disso mentalmente  para  perguntar  depois  a  um arqueólogo  se  havia  outras descobertas que pudessem respaldar nossa confiança no quarto evangelho.

Uma abundância de provas
Embora  os  manuscritos  de  papiros  constituam as  cópias  mais antigas do Novo Testamento, existem também cópias antigas escritas em pergaminhos, feitos de pele de gado, ovelhas, cabras e antílopes.

— Temos os chamados manuscritos unciais, escritos inteiramente em letras  gregas  maiúsculas  — Metzger  explicou.  — Temos hoje  306 exemplares, muitos dos quais remontam ao início do século III. Os mais importantes são o Códice sinaítico, que é o único com o Novo Testamento completo  em letras  unciais,  e  o  Códice  Vaticano,  bastante  incompleto. Ambos são de cerca de 350 d.C. Um novo estilo de escritura, de natureza mais cursiva, emergiu por volta de 800 d.C. É chamado de minúscula, e há
cerca de 2 856 manuscritos  desse tipo.  Há também os lecionários,  que contêm as Escrituras do Novo Testamento na seqüência de leitura prescrita pela igreja primitiva em determinadas épocas do ano. Um total de 2 403 desses  manuscritos  já  foram catalogados.  Com isso,  o  total  geral  de manuscritos gregos chega a 5 664.

De acordo  com Metzger,  além dos  documentos  gregos  existem milhares de outros  manuscritos  antigos  do Novo Testamento em outras línguas. Existem entre 8 e 10 mil manuscritos da Vulgata latina, mais um total de 8 mil em etíope, eslavo antigo e armênio. No total, há cerca de 24 mil manuscritos.

— Qual a sua opinião diante  disso?  — perguntei-lhe,  buscando confirmar claramente  o que julgava  ter  ouvido.  — No que se refere  à multiplicidade de manuscritos e ao intervalo de tempo entre os originais e  nossos primeiros exemplares, qual a situação do Novo Testamento perante outras obras bem conhecidas da Antigüidade?

— Muito boa — respondeu ele. — Podemos confiar imensamente na  fidelidade  do  material  que  chegou  até  nós,  principalmente  se  o compararmos a qualquer outra obra literária antiga.

Essa conclusão é compartilhada por estudiosos eminentes de todo o mundo. De acordo com o falecido F. F. Bruce, autor de Merece confiança o Novo Testamento?, “no mundo não há qualquer corpo de literatura antiga que, à semelhança do Novo Testamento, desfrute uma tão grande riqueza de confirmação textual”. 16

Metzger já mencionara o nome de sir  Frederic Kenyon, ex-diretor do  Museu  Britânico  e  autor  de  The  paleography  of  Greek  papyrí  [A paleografia  dos  papiros  gregos].  Segundo  Kenyon,  “em nenhum outro caso  o  intervalo  de  tempo entre  a  composição  do  livro  e  a  data  dos manuscritos  mais  antigos  são  tão  próximos  como  no  caso  do  Novo Testamento”. 17

Sua conclusão: “Não resta agora mais nenhuma dúvida de que as Escrituras  chegaram até  nós  praticamente  com o mesmo conteúdo  dos escritos originais”. 18

Mas, e as discrepâncias entre os vários manuscritos? No tempo em que não havia ainda as velozes máquinas fotocopia-doras, os manuscritos eram laboriosamente copiados à mão por escribas, letra por letra, palavra por palavra, linha por linha, num processo muito propício a erros. Queria muito  saber  agora  se  esses  erros  dos  copistas  tinham  introduzido imprecisões irremediáveis nas Bíblias de hoje.

Examinando os erros
— Dada a semelhança de escrita das letras gregas — eu disse — e as condições primitivas nas quais trabalhavam os escribas, era grande a possibilidade de que eles introduzissem erros nos textos.

— Exato — concordou Metzger.

— Então  é  provável  que  existam  milhares  de  variações  nos manuscritos antigos que possuímos, não é mesmo?

— Exato.

— Isso  significa  então  que  não  podemos  confiar  neles?  — perguntei num tom mais de acusação que de interrogação.

— Não, senhor,  não significa que não podemos confiar neles — respondeu Metzger categoricamente. — Em primeiro lugar,  os óculos só foram inventados em 1373, em Veneza. Tenho certeza de que muitos dos antigos  escribas  sofriam  de  astigmatismo.  Acrescente-se  a  isso  a dificuldade que era, independentemente das circunstâncias, ler manuscritos já  apagados,  cuja  tinta  havia  perdido  a  nitidez.  Havia  também outros
perigos — falta de atenção da parte dos escribas, por exemplo. Portanto, embora  a  maior  parte  dos  escribas  fosse  escrupulosamente  cuidadosa, alguns erros acabavam passando.

Mas— Metzger estava pronto a acrescentar — há outros fatos que compensam isso. Por exemplo, às vezes a memória do escriba pregava-lhe peças. Entre olhar o que tinha de copiar e, em seguida, escrever o que lera, ele podia acabar mudando a ordem das palavras. Ele escrevia exatamente as palavras que lera, porém na seqüência errada. Isso não deve ser motivo para se alarme,  já  que o grego, ao contrário de outras línguas,  como o inglês ou o português, é uma língua que admite flexões.

— Isso quer dizer que… — interrompi.

— Que faz uma enorme diferença em português se você disser: “O cachorro morde o homem” ou: “O homem morde o cachorro”. A ordem das palavras é importante em português, mas não no grego. Uma palavra pode funcionar  como  sujeito  da  oração  independentemente  de  onde  esteja colocada. Conseqüentemente, o significado da oração não fica truncado se as  palavras  não  estiverem na  ordem que  consideramos  correta.  Existe, portanto, uma certa variação entre um manuscrito e outro, mas, em geral, são variações de somenos importância. As diferenças de grafia seriam um
outro exemplo.

Mesmo assim, o número de “variações” ou de “diferenças” entre os manuscritos  era  preocupante.  Eu já  tinha  visto  algumas  estimativas  da ordem  de  200  mil  variações. 19

Metzger,  contudo,  não  deu  muita importância a essa quantidade.

— O número  parece  grande,  mas  engana um pouco pelo modo como as variações são computadas — disse ele, explicando que, se uma  única  palavra  for  escrita  incorretamente  em  2  mil  manuscritos, contabilizam-se 2 mil variações.

Concentrei-me na questão mais importante.

— Quantas  doutrinas  da  igreja  estão  em  risco  por  causa  das variações?

— Não sei de nenhuma doutrina que esteja em risco — respondeu ele com convicção.

— Nenhuma?

— Nenhuma — ele repetiu. — Os testemunhas-de-jeová batem à sua porta e lhe dizem: “Sua Bíblia está errada em 1João 5.7,8, onde se lê: ‘o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um’ (NVI, nota de rodapé). Eles dirão que não é assim que esse texto aparece nos manuscritos mais antigos. E é verdade mesmo.  Acho que essas  palavras só aparecem em cerca de sete ou oito cópias, todas dos séculos XV ou XVI. Admito que
esse texto não faz parte do que o autor de 1João foi inspirado a escrever. Isso,  porém,  não  invalida  o  testemunho  sólido  da  Bíblia  acerca  da Trindade. No batismo de Jesus, o Pai fala, seu Filho amado é batizado e o Espírito Santo desce sobre ele. No final de 2Coríntios, Paulo diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos  vocês”.  A Trindade  aparece  representada  em muitos
lugares.

— Então as variações, sempre que ocorrem,  normalmente são de importância secundária, e não primordial?

— Sim,  sim,  é  isso  mesmo.  Os  estudiosos  trabalham  muito cuidadosamente  para tentar  solucioná-las,  devolvendo-lhes o significado original. As variações mais significativas não solapam nenhuma doutrina da igreja.  Qualquer Bíblia que se preza vem com notas que indicam as variações de texto mais importantes. Mas, como eu já disse, esses casos são raros.

São tão raros que estudiosos como Norman Geisler e William Nix chegaram à seguinte conclusão: “… o Novo Testamento não só sobreviveu em um número maior  de manuscrito,  mais  que qualquer outro livro  da Antigüidade, mas sobreviveu em forma muito mais pura (99,5% de pureza) que qualquer outra obra grandiosa, sagrada ou não”.
20

Próxima Parte: Parte 3 – As Traduções – Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis?

Referências
16 F. F. BRUCE, The books and the parchments, Old Tappan, Revell, 1963, p. 178, ap. Josh MCDOWELL, Evidência que exige um veredito, 2. ed., São Paulo, Candeia, p. 53.
17 Frederic KENYON, Handbook to the textual criticism of the New Testament, New York,
Macmillan, 1912, p. 5,ap. Ross CLIFFORD, The case for the empty tomb, Claremont,
Albatross, 1991, p. 33.
18  Frederic KENYON, The Bible And Archaeology, New York, Harper, 1940, p. 288.
19  Norman L. GEISLER & William E. Nix, Introdução bíblica: como a Bíblia chegou até
nós, São Paulo, Vida, 1997, p. 172.
20 Ibid., p. 176

Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis? O Tempo (Parte 1)

LeeStrobelNesta primeira postagem da série é reproduzido um trecho do livro “Em Defesa de Cristo” do jornalista e ex-ateu Lee Strobel. É um trecho que irá esclarecer a dúvida sobre a data em que os evangelhos foram escritos.

Lee era um ateu linha dura que ficou furioso quando sua esposa começou a frequentar o culto de uma igreja local. Ele chamou alguns amigos repórteres para irem a uma das reuniões e anotar tudo o que pastor falava. Seu objetivo era um só: Colocar suas habilidades investigativas de jornalista para desmascarar de vez o que ele achava que o cristianismo era: uma grande farsa.

Mal sabia ele que esta decisão seria o início de uma jornada sua de 2 anos onde ele realizou uma análise investigativa detalhada dos evangelhos. A jornada culminou no sentido contrário, com sua conversão a discípulo de Cristo devida à esmagadora quantidade de provas em favor da confiabilidade dos evangelhos.

CraigBlombergNeste trecho Lee entrevista o Dr Craig Blomberg. Antes vejamos uma breve biografia acadêmica do Dr Blomberg.

O Dr Craig  Blomberg  é  considerado  uma  das  autoridades  mais  importantes  do  país (EUA) nas  biografias  de  Jesus,  os  quatro  evangelhos. Doutorou-se  em Novo Testamento  pela  Aberdeeen  University,  Escócia, tornando-se  posteriormente  pesquisador  sênior  da  Tyndale  House,  na Universidade de Cambridge, Inglaterra, onde integrou um grupo de elite formado  por  estudiosos  internacionais  responsáveis  por  uma  série  de trabalhos  muito  elogiados  sobre  Jesus.  Há  12  anos  leciona  Novo Testamento no prestigioso seminário de Denver. Dentre  os  livros  que  escreveu,  podemos  citar  Jesus  and  the gospels: interpreting the parables [Jesus e os evangelhos: a interpretação das  parábolas];  How wide the divide? [Qual o tamanho da divisão?], além de comentários sobre o evangelho de Mateus e 1Coríntios. Participou também da edição do sexto volume de Gospel perspectives [Perspectivas  dos evangelhos],  que trata exaustivamente dos milagres de Jesus. E coautor  ainda  de  Introductíon  to  biblical  interpretation  [Introdução  à interpretação  bíblica].  Contribuiu  com  alguns  capítulos  sobre  a historicidade dos evangelhos para o livro Reasonable faith [Fé racional] e escreveu  o  elogiado  Jesus  under  fire  [Jesus  sob  cerco].  Blomberg  é membro da Sociedade para o Estudo do Novo Testamento, da Sociedade de Literatura Bíblica e do Instituto de Pesquisas Bíblicas.

Apresentado o Dr Blomberg vamos a pergunta: Podemos Confiar nos Evangelhos Bíblicos?

Confiram o trecho do livro.

Em Defesa de CristoEm Defesa de Cristo pag 30 – 35

Uma  coisa  é  dizer  que  os  evangelhos  procedem  direta  ou indiretamente  do  testemunho  ocular;  outra  coisa  é  afirmar  que  a informação neles contida ficou preservada de modo confiável até que fosse finalmente registrada por escrito anos mais tarde. Eu sabia que esse era um dos  principais  pontos em disputa,  por isso queria  desafiar  Blomberg,  o quanto antes, com essa questão.

Peguei novamente o livro de Karen Armstrong, A history of God, e lhe disse:

Ouça o que mais diz a autora:

Sabemos muito pouco sobre Jesus. O primeiro relato mais abrangente sobre sua vida aparece no evangelho segundo São Marcos, que só foi escrito por volta do ano 70,
cerca de 40 anos depois de sua morte.  Àquela altura,  os fatos  históricos  achavam-se misturados a elementos míticos que expressavam o significado que Jesus havia adquirido para seus seguidores. É esse significado, basicamente, que o evangelista nos apresenta, e não uma descrição direta e confiável. 8

Pus  de volta  o livro na valise  aberta,  virei-me para Blomberg e prossegui:

— Alguns  estudiosos  dizem  que  os  evangelhos  foram escritos muito depois dos acontecimentos por eles registrados. Com isso, as lendas que se desenvolveram durante esse período acabaram por contaminar sua redação, alçando Jesus de simples professor sábio ao mitológico Filho de Deus. O senhor acha razoável essa hipótese ou será que existem indícios suficientes de que a composição dos evangelhos é anterior a essa data, ou seja,  antes  que  a  lenda  pudesse  corromper  totalmente  o  que  ficou registrado?

Blomberg, de olhos semicerrados, disse em tom veemente:

— Temos  duas  questões  distintas  aqui,  e  é  importante  que  as conservemos assim. Estou certo que temos indícios suficientes para fixar a data da redação dos evangelhos em um período mais antigo. Mas, mesmo que não tivéssemos, o argumento de Armstrong seria falho do mesmo jeito.

— Por quê? — perguntei-lhe.

— As datas estabelecidas no meio acadêmico, mesmo nos círculos mais liberais, situam Marcos nos anos na década de 70, Mateus e Lucas na década de 80, e João na década de 90. Observe que essas datas ainda estão dentro  do  período  de  vida  de  várias  pessoas  que  foram  testemunhas oculares da vida de Jesus, inclusive daquelas que lhe foram hostis, e que por isso poderiam atuar como parâmetro de correção caso houvesse em circulação algum ensinamento falso sobre Jesus. Conseqüentemente, essas datas mais  recentes para os evangelhos não são assim tão recentes.  Na verdade,  é  possível  fazer  uma  comparação  muito  instrutiva.  As  duas biografias mais antigas de Alexandre, o Grande, foram escritas por Ariano e Plutarco depois de mais de 400 anos da morte de Alexandre, ocorrida em 323 a.C, e mesmo assim os historiadores as consideram muito confiáveis. É claro que surgiu um material lendário com o decorrer do tempo, mas isso só aconteceu nos séculos posteriores aos dois autores. Por outras palavras, nos  primeiros  500 anos, a história  de Alexandre ficou quase intacta.  O material  lendário começou a aparecer nos 500 anos seguintes.  Portanto, comparativamente, é insignificante saber se os evangelhos foram escritos 60  ou  30  anos  depois  da  morte  de  Jesus.  Na  verdade,  a  questão praticamente inexiste.

Entendi  o  que  Blomberg  queria  dizer.  Ao  mesmo  tempo,  tinha minhas  reservas.  Para  mim,  parecia  intuitivamente  óbvio  que,  quanto menor o lapso  de tempo entre  um acontecimento e o momento  de seu registro, tanto menor a possibilidade de esse registro ser corrompido por lendas ou lembranças incorretas.

— Vamos  admitir,  por  enquanto,  que  seja  isso  mesmo,  mas
voltemos  à  data  de  registro  dos  evangelhos  — eu  disse.  — O senhor
acredita que eles foram escritos possivelmente antes da data mencionada?

— Sim, antes — disse Blomberg. — Podemos confirmar isso pelo livro de Atos, escrito por Lucas. Atos termina, aparentemente, sem uma conclusão. Paulo é a personagem principal do livro, e se encontra preso em Roma.  É assim, abruptamente,  que o livro  acaba. O que acontece com Paulo? Atos não nos diz, provavelmente porque o livro foi escrito antes da morte dele.

Blomberg ia ficando cada vez mais empolgado.

— Isso significa que o livro de Atos não pode ser posterior a 62 d.C. Assim, podemos recuar a partir desse ponto. Uma vez que Atos é o segundo tomo de um volume duplo, sabemos que o primeiro tomo — o evangelho de Lucas — deve ter  sido escrito antes dessa data. E já que Lucas inclui parte do evangelho de Marcos, isto significa que Marcos é ainda mais antigo. Se trabalharmos com a margem aproximada de um ano para cada um, chegaremos à conclusão de que Marcos foi escrito por volta de 60 d.C, talvez até mesmo em fins da década de 50. Se Jesus foi morto em  30  ou  33  d.C,  temos  aí  um intervalo  de,  no  máximo,  30  anos aproximadamente.

Blomberg recostou-se novamente na poltrona com ar de triunfo.

— Em termos  de  história,  principalmente  se  compararmos  com Alexandre, o Grande, disse ele, é como se fosse uma notícia  de última hora!

Era mesmo muito impressionante o fato de que, do ponto de vista histórico, tinha pouquíssima relevância o intervalo entre os acontecimentos da vida de Jesus e a data em que os evangelhos foram escritos. Todavia, eu queria insistir no assunto. Meu objetivo era retroceder no tempo o máximo possível até chegar às primeiras informações sobre Jesus.

Voltando ao começo

Levantei-me e fui até a estante.

— Vejamos se é possível  recuar  mais  ainda no tempo — disse, virando-me  para  Blomberg.  — De  que  época  datam  os  primeiros testemunhos mais importantes sobre a expiação, a ressurreição e a relação única de Jesus Cristo com Deus?

— É bom lembrar que os livros do Novo Testamento não estão em ordem cronológica — disse Blomberg inicialmente. Os evangelhos foram escritos praticamente depois das cartas de Paulo, cujo ministério epistolar começou por volta do fim da década de 40. A maior parte de suas cartas mais importantes são da década de 50. Para saber qual a informação mais antiga, vamos às cartas de Paulo com a seguinte pergunta: “Existem sinais aqui  de  que fontes  mais  antigas  teriam sido  usadas  na  redação  dessas
cartas?”.

— E o que encontramos? — perguntei.

—  Descobrimos  que  Paulo  havia  abraçado  alguns  credos,  confissões de fé  ou hinos da igreja  cristã  mais  antiga. Esses elementos remontam ao alvorecer da igreja pouco depois da ressurreição. Os credos mais famosos são os de Filipenses 2.6-11, que fala de Jesus como tendo a mesma natureza de Deus, e Colossenses 1.15-20, onde Jesus é descrito como a “imagem do Deus invisível”, que criou todas as coisas e por  meio de quem todas as coisas foram reconciliadas com Deus, “estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz”. Essas passagens sem dúvida são importantes  porque  mostram o tipo de crença que tinham os primeiros cristãos em relação a Jesus. Todavia, talvez o credo mais importante no que se refere ao Jesus histórico seja o de 1Coríntios 15, onde Paulo usa uma linguagem técnica para indicar que estava transmitindo essa tradição oral de uma forma relativamente fixa.

Blomberg localizou a passagem na Bíblia e a leu para mim:

Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez,  a maioria  dos quais  ainda vive,  embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago e, então, a todos os apóstolos. 9

— Essa  é  a  questão  — disse  Blomberg.  — Se  a  crucificação ocorreu em 30 d.C, a conversão de Paulo se deu aproximadamente em 32. Ele foi então levado imediatamente para Damasco, onde se encontrou com um cristão  chamado  Ananias  e  alguns  outros  discípulos.  Seu  primeiro encontro com os apóstolos em Jerusalém teria ocorrido em 35 d.C. Em algum  momento  desse  período,  Paulo  recebeu  esse  credo,  que  fora
formulado pela igreja primitiva e era usado por ela. Temos aqui, portanto, os principais fatos sobre a morte de Jesus pelos nossos pecados, além de uma lista detalhada daqueles para quem ele apareceu ressuscitado — tudo isso  se  dá  no  intervalo  de  dois  a  cinco  anos  depois  dos  eventos propriamente ditos! Não se trata aí de mitologia elaborada cerca de 40 anos ou  mais  depois,  conforme  pretende  Armstrong.  Pode-se  perfeitamente argumentar  a  favor  da  crença  na  ressurreição,  muito  embora  não  haja nenhum registro  escrito,  que  ela  remonta  aos  dois  anos  posteriores  ao
evento. Isso é de suma importância — disse ele, levantando um pouco a voz para dar ênfase.

— Não estamos comparando  30  ou  60  anos  com os  500  anos normalmente aceitos para outros dados — estamos falando de dois anos!

Não havia como negar a importância dessa prova. Ela parecia, sem dúvida, invalidar a acusação de que a ressurreição — que para os cristãos era a maior prova da divindade de Jesus — fora meramente um conceito mitológico  formulado  ao  longo  do  tempo,  à  medida  que  as  lendas corrompiam os relatos das testemunhas oculares da vida de Cristo. Fiquei particularmente  impressionado:  como cético  que era,  a ressurreição era
uma das minhas principais objeções ao cristianismo.

Encostei-me na estante.  Tratáramos de vários  assuntos e,  depois daquela observação culminante de Blomberg, achei que era hora de fazer uma pausa.

Um pequeno recesso
Já era fim de tarde. Tínhamos conversado o tempo todo sem fazer nenhum intervalo. Todavia, não queria encerrar nossa conversa sem antes submeter  os  relatos  das  testemunhas  oculares  ao  mesmo tipo  de  teste utilizado por advogados ou jornalistas. Precisava saber se eles passariam no teste ou se, na melhor das hipóteses, se mostrariam duvidosos; ou, na pior das hipóteses, indignos de confiança.

Depois de preparado o terreno, convidei Blomberg a se levantar e a esticar  as  pernas  antes  de  nos  sentarmos  novamente  para  retomar  a  discussão.

Ponderações
Perguntas para reflexão ou estudo em grupo
1. Você  já  foi  influenciado  pelo  testemunho  ocular  de  alguém?  Que critérios você costuma utilizar para avaliar a veracidade e a precisão de uma história?  Pelos  seus  critérios,  que tipo de avaliação receberiam os evangelhos?
2.  Na  sua  opinião,  o  conteúdo  teológico  dos  evangelhos  afeta  a autenticidade de seu testemunho histórico? Sim ou não? Justifique. Você acha que a analogia que Blomberg faz com o Holocausto ajuda a refletir sobre essa questão?
3.  De que modo a explicação de Blomberg sobre  as informações mais antigas  que  se  tem  sobre  Jesus  influencia  sua  opinião  sobre  a confiabilidade dos evangelhos e por quê?

Próxima Parte: Parte 2 – A Preservação – Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis?

Outras fontes de consulta
Mais recursos sobre esse tema
BARNETT, Paul. Is the New Testament history? Ann Arbor,Vine, 1986.
______. Jesus and the logic of history. Grand Rapids, Eerdmans, 1997.
BLOMBERG, Craig. The historical reliability of the gospels. Downers Grove,
InterVarsity, 1987.
BRUCE,  E E  Merece confiança o Novo Testamento?  2.  ed.  Trad  Waldyr
Carvalho Luz. São Paulo, Vida Nova, 1990.
FRANCE, R. T. The evidence for Jesus. Downers Grove, InterVarsity, 1986.

Fontes citadas
8  ARMSTRONG, op. cit, p. 79.
9 1Coríntios 15.3-7

Em Defesa de Cristo
Livro
Documentário em Vídeo

Série ‘Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis?’

panorama do novo testamentoNos dias de hoje várias são as dúvidas sobre a confiabilidade dos textos bíblicos, principalmente dos chamados evangelhos canônicos. Quando eles foram escritos? Não se passou muito tempo?  Eles foram adulterados pela igreja? As traduções são confiáveis?

Estas questões são abordadas numa série de três postagens.

Parte 1 – O Tempo – Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis? 
Nesta parte será respondida a questão de quando eles foram escritos.

Parte 2 – A Preservação – Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis?
Aqui será abordada a questão da preservação dos manuscritos.

Parte 3 – As Traduções – Os Evangelhos Bíblicos são Confiáveis?
Nesta última parte será respondida a dúvida muito comum sobre confiabilidade das traduções.

Fique a vontade para sugerir temas, pedir esclarecimentos ou postar suas objeções.

Respondendo Objeções ao Argumento Ontológico

Vídeo

Há 7 objeções ao argumento ontológico que os ateus usam normalmente. No entanto, cada objeção é facilmente refutada e não prova que a grandeza máxima é uma propriedade impossível. Este vídeo demonstra isto e reforça a validade do argumento ontológico.

Apresentando o argumento ontológico e a refutação da Paradox Onipotência:
http://www.youtube.com/watch?v=-vnLGNLIIK8
http://www.youtube.com/watch?v=pqY7gYCnBiM
http://jwwartick.com/2010/02/18/the-ontological-argument-therefore-god-exists/

Mais informações sobre o problema lógico do mal:
http://www.youtube.com/watch?v=cv85tvudi7Y
http://www.youtube.com/watch?v=dEc4nLzdlc0
http://www.youtube.com/watch?v=NIsPnaTRv_E
http://www.youtube.com/watch?v=YuCEwyCitI0

Mais sobre o Problema da Imperfeição:
http://www.quora.com/God/Can-the-world-being-imperfect-be-used-as-an-argument-to-prove-the-non-existence-of-God

Mais sobre a demandas de evidência empírica:
http://www.youtube.com/watch?v=f7377jU2a8Y
http://www.youtube.com/watch?v=tCXAiVx5FMw
http://www.youtube.com/watch?v=Kxup3OS5ZhQ

Mais informações sobre o argumento Perfeição modal:
http://rfforum.websitetoolbox.com/post?id=3458545

O argumento ontológico comete petição de princípio?:
http://jwwartick.com/2011/01/05/oa-not-q-begging/
https://arazaodaesperanca.wordpress.com/2013/01/07/o-argumento-ontologico-comete-a-falacia-da-peticao-de-principio/

Peter S Williams refuta mais objeções:
http://media.damaris.org/podcastitems/peterswilliams/ontological_argument.mp3

* Se você for pego quebrando as regras de postagem deste canal seus comentários serão removidos e você poderá ser bloqueado. Se não gostou deste aviso assista a isto:
http://www.youtube.com/watch?v=A8LBuLHdJfw